os mesteres. nós não queremos que tudo esteja perdido e que nada do que fazemos nos devolva a promessa feita a todos os sinais, a todas as lembranças, para recuperarmos a imagem adequada do nosso mundo.


não é uma recordação dos lugares e dos momentos bem aventurados, não é a imitação nem a repetição de um momento cheio de vida, do apelo e da magia de se estar pleno em todas as horas, não é a tragédia que assiste ao esquecimento de tudo com que de cada vez lidamos, com que de cada vez nos encontramos, para iludir e manter o encobrimento das coisas.
pensávamos nos ofícios extraordinários daqueles que amamos. a paixão dos ofícios que foram tão reais quanto a nossa própria vida. pois interessa-nos, por instantes, relembrar o gesto nos artifícios, sem os manuais e os tratados dos antigos mestres. queremos só os seus engenhos avulsos, as notas e as pontas soltas de uma arte sem tempo.
 

mas a imitação tem astúcia e ilude-nos na medida das circunstâncias com o fascínio pela sensualidade, pela aparente trama com que nos envolve a beleza emparedada das coisas. e sem nos darmos conta, somos lançados, nas desculpas que damos, nos desvarios e nas derivas, na medida dos caminhos e dos encontros ...e o olhar do coração foi desviado para uma sala escura.

mas por outro lado, nós que continuamos, que ainda persistimos, sentimos que o coração balança entre o que foi e o que há-de vir para a nossa casa ...e lança-nos uma dúvida sobre as mais diversas memórias.
Serão estas a matéria de que é feita a nossa face, aquele rosto que exprime a nossa verdadeira presença?

e diz-se dos olhos, orlados de escuro, centrados em todas as cores, que escondiam a ordem inversa do que recordamos.
nós bem sabemos que nada perdemos do que deixámos outrora, porque firmamos os pés no chão e no chão que nos leva há pedras e grãos de terra, há flores, água e lodo, há o brilho do céu, há caminhos, pontes e abismos, há labirintos inimagináveis, fronteiras invisíveis onde começamos o que para muitos acabou e ali ficou, retido, estanque num tempo já extinto, mas afinal, talvez iludido na aparência de uma intensa e glorificada proeza.
e o que começámos há muito que foi modelado e projectado a partir do nosso próprio desejo de aconchego, da tradição do consolo, de reviver todos os passos que fomos e somos. todos os gestos e todas as aptidões são feitos da espera, do silêncio, do saber e do perdão. há momentos de recolhimento e renuncia para que mais tarde mudemos a forma do ofício e consigamos prosseguir com alegria a vida que queremos plena.

mas reconhecemos que há uma fome que devora tudo e nos lança no mais agreste desejo e confusão, talvez num andamento inverso do Amor e do Bem que queremos. desvia-nos para um caminho à deriva, rasgado no labirinto, de querer partir e ultrapassar fronteiras, convencidos de que a terra vai tremer, que a paisagem mudará o rumo de todos os nossos sonhos e que a escolha vai ditar a tonalidade mais intima, mais ambicionada, mais querida por todos nós.

se a vontade é vã, é um diário disperso como a sombra das folhas suspensas. se a vontade for afinal a mais intensa paixão e se a paixão for porventura a nossa perícia, nós queremos fazer dela missão e mester. como um desígnio de criança que engendra os mundos, sem se dar conta de que é a mais feliz das criaturas.
a nossa força é inesgotável e faz a torção a quem a queira roubar. do pouco que sabemos faremos alimento de quem se ouse atravessar à nossa frente por carestía do espírito. será este o nosso futuro: convocar o tempo em silêncio e agir como um sagrado segredo.
o trabalho é para o mundo que se abre, a matéria de que é feita a nossa face, o rosto que exprime a nossa verdadeira presença. todos os mesteres são a libertação do gesto, a vigorosa vontade de caír de pé, arte da liberdade e obra em aberto, na competência e nos detalhes. como a luz que vislumbramos à nossa frente é já feita de nós, antecipada pelo caminho que nos leva até ela. Também o gesto nos define, antes mesmo de o terminar.

e diz-se dos olhos, orlados de escuro, centrados em todas as cores, que escondiam a ordem inversa do que recordamos.

miguel pessoa vidal . cavalos no gelo © 2012